ONDE REPORTAMOS


Traduzir a página com Google

Reportagem Publication logo February 12, 2021

Febre, madeira balsa e pandemia no território Achuar

País:

Autor(a):
The Jirijirimo waterfall, on the Yaigojé river, in the Brazilian state of Amazonas.
Inglês

The FLARES FROM THE AMAZON project seeks to warn of the increased dangers of deforestation and...

author #1 image author #2 image
Vários autores

Madeira de Balsa, pronta para o processamento | Pablo Albarenga

A pandemia de Covid-19 foi o pretexto encontrado pelas empresas extrativistas para continuar explorando mais intensamente os territórios indígenas, enquanto o mundo inteiro faz vista grossa.

Na Amazônia equatoriana, por exemplo, a exploração indiscriminada de madeira balsa aumentou, exercendo grande pressão sobre a bacia média e baixa do rio Pastaza, no território da nacionalidade Achuar, assim como outras como Kichwa, Shuar e Waorani – uma pressão que destaca até que ponto os impactos do extrativismo na região amazônica estão sendo desastrosos nos dias de hoje.

Além disso, em meio a uma emergência sanitária, os efeitos sobre a população local são ainda maiores. Na Amazônia equatoriana, a febre da balsa, com a chegada de centenas de madeireiros para o corte massivo desta preciosa madeira amazônica, tornou-se o foco fatal do contágio do coronavírus nas comunidades indígenas amazônicas.

Diante do impacto crescente da febre da balsa na Amazônia central, causada pela alta demanda internacional por esta madeira, leve, resistente e muito utilizada para fabricar lâminas de geradores de energia eólica na Europa e na China, juntamente com meus colegas Bryan Garcés e Lenin Montahuano, a equipe de comunicação da Confeniae Lanceros Digitales decidiu documentar esta realidade através de visitas de campo, principalmente ao território Achuar.

Entramos pela estrada Chico Copataza e ao longo do caminho vimos pelo menos cinco caminhões carregando troncos de madeira balsa, com a presença de não-indígenas. Em resposta ao pedido do líder Achuar, começamos a manter um registro audiovisual de tudo o que estava acontecendo no território. Quando começamos a viagem com nossa equipe para documentar a situação, vimos caminhões carregando e descarregando balsa, barcos transportando essa madeira, pessoas chegando e indo.

Já na viagem de canoa no rio Pastaza, observamos como dezenas de pessoas estavam concentradas em cada uma das ilhas que existem ao longo deste grande rio, cortando precisamente as maiores árvores de balsa para conseguir mais madeira. Seus acampamentos ocupavam cerca de dois quilômetros quadrados em cada ilha, nas margens do rio. Isto era apenas o começo, a situação iria se complicar mais tarde.

"Não há autorização para tirar balsa de nosso território, eu não dei essa disposição, senhores", afirmou Tiyua Uyunkar, presidente do povo Achuar do Equador, que nos acompanhou em nosso trajeto, enquanto observava a efervescência da extração. "O corte de madeira deve parar imediatamente porque coloca em risco a conservação de nossas margens do rio e isto pode então desencadear inundações que afetam nossas comunidades. Realizaremos assembleias com os presidentes das associações e comunidades porque este é um território comunitário e o povo deve tomar decisões", disse Uyunkar, mostrando visível preocupação.

Neste e em outros recorridos, visitamos até 15 acampamentos ilegais estabelecidos nas ilhas do Rio Pastaza. E isso é apenas no território Achuar. Sabemos que em outras áreas, como Kichwa e Waorani, a febre também disparou e pontos de exploração similares são encontrados ao longo de diferentes bacias hidrográficas.

Mas além do corte indiscriminado dessa madeira valiosa, outros fenômenos de degradação derivados de atividades extrativas foram observados nas comunidades. Prostituição, alcoolismo e desintegração social proliferam.

Combate à febre da balsa

A comunidade de Sharamentsa, localizada no território Achuar do baixo Pastaza, decidiu não cortar mais os paus-de-balsa e manter a proteção permanente das ilhas e dos animais que as habitam, uma vez que são fundamentais para o equilíbrio ecológico da área. Além disso, decidiram realizar diferentes alternativas econômicas à balsa, tais como a produção de alimentos, educação e turismo. Sharamentsa é uma comunidade ecológica modelo que decidiu resistir.

Arco-íris em Sharamentsa, em território Achuar
Arco-íris em Sharamentsa, em território Achuar | Francesc Badia i Dalmases

Nantu Canelos, um jovem líder indígena de Sharamentsa, nos contou sobre as atividades que, junto com vários membros da comunidade, estão se desenvolvendo como uma alternativa para proteger esta parte biodiversa da floresta amazônica. "Hoje realizamos uma atividade importante para nossa comunidade – contamos a balsa e a área das ilhas de nosso território que estão sendo permanentemente defendidas pela comunidade Achuar. Quando iniciamos as atividades de contagem, descobrimos que as ilhas são o refúgio de diferentes aves e animais. São também um local de reprodução da fauna. Encontramos diferentes rastros de animais, como onças, veados, capivaras e também aves de diferentes espécies, como garças, papagaios e araras. Com isso quero mostrar que não estamos apenas na luta por estes animais, mas que esta biodiversidade é a que atua dentro da selva cumprindo a função de plantar, dispersar as sementes e assim reproduzir a vida."

Durante os dias em que estivemos no território, o presidente da comunidade convocou uma assembleia para tomar decisões sobre a crise da febre da balsa. Primeiro, no início da manhã, eles se reuniram para o tradicional Wais umamu, bebida energética feita da planta guayusa que mantém o espírito forte durante o dia de trabalho. Horas mais tarde, delegados das diferentes comunidades vizinhas se reuniram na casa comunitária de Sharamentsa. Para iniciar o evento com a saudação ancestral, eles estenderam suas lanças um em frente ao outro, sentados em bancos de madeira em forma de animais, enquanto se cumprimentavam com frases vigorosas em sua língua nativa.

O ecossistema da baixa Pastaza é tão imensamente rico quanto frágil, e a agressão imposta pela febre da balsa pode acabar com o equilíbrio preservado há milhares de anos

A assembleia realizou um intenso debate sobre a necessidade de conservar a floresta da qual as famílias das comunidades dependem historicamente como fonte de vida e subsistência. A exploração indiscriminada que ameaça a floresta põe em perigo a sobrevivência das gerações atuais e futuras.

Após sérias deliberações, as comunidades resolveram suspender a extração de balsa em seu território comunitário, resolução anunciada através de comunicados escritos assinados pelas autoridades. Também foram divulgados através das plataformas audiovisuais de nossa equipe de comunicação, que foi convidada a documentar este e os eventos subsequentes, a fim de torná-los visíveis para a opinião pública nacional e internacional.

"Declaramos a proibição da extração de balsa em todo o território do povo Achuar do Equador para proteger o futuro de nossas gerações. A floresta é nossa fonte de vida e é nosso dever protegê-la, não dando lugar ao abate excessivo e ao extrativismo que só tem deixado problemas e ameaças na Amazônia", disse o mais alto representante Achuar.

O ecossistema da baixa Pastaza é tão imensamente rico quanto frágil, e a agressão imposta pela febre da balsa pode acabar com o equilíbrio preservado há milhares de anos. A proibição da extração é um passo decisivo para a conservação do território e é essencial que as autoridades respeitem a soberania indígena e colaborem com todos os meios à sua disposição para deter esta febre que pode ser ainda mais letal do que a própria pandemia.


Esta história faz parte da série 'Flamas da Amazônia', produzida pelo democraciaAbierta e publicada em espanhol no El País. A equipe da CONFENIAE participou no Equador junto com jornalistas indígenas de Lanceros Digitales. A série é apoiada pelo Rainforest Jounalism Fund do Pulitzer Center. Agradecemos os testemunhos e material gráfico fornecidos pelos membros das comunidades retratadas nesta história, que permanecem isolados por causa da Covid-19.

RELATED CONTENT