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Reportagem Publication logo August 9, 2021

O último adeus dos sábios indígenas siekopai

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MÁSCARAS. Gerardo Chasoy é um artista indígena do povo Inga e Kamentsa, localizado em Putumayo, Colômbia, na fronteira com o Peru. Foto: Duber Rosero / OjoPublico
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This project will investigate how the pandemic affected the life, security and community relations...

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Foto de Iván Izurieta Jiménez.

Esta história também pode ser lida em inglês e espanhol.


O novo coronavírus desolou famílias inteiras pelo mundo. Nos povos indígenas, também ameaçou o conhecimento tradicional transmitido pelos mais velhos, os sábios. Na Amazônia equatoriana, dois deles morreram de Covid logo no início da pandemia: Enrique Piaguaje e Belisario Payaguage. O primeiro era como um médico para a comunidade por seu extenso conhecimento das plantas. O segundo era o último que sabia sobre a construção das casas tradicionais, chamadas “malocas”. Eles morreram na comunidade de Bellavista, localizada na província de Sucumbíos, no Nordeste do Equador. Tinham entre 65 anos e 70 anos de idade.

Quando o terceiro sábio da comunidade adoeceu, o professor Eduardo Payaguage, e começou a ter dificuldades para respirar, decidiram levá-lo a um hospital. Ficou internado durante 20 dias, mas não resistiu. “Quando ele voltou para a comunidade em uma urna, foi um choque. Fiquei indignado. Disse que não queria mais saber do sistema de saúde. A única coisa que nos davam era paracetamol”, conta Justino Piaguage, que na época era presidente da nacionalidade e hoje é dirigente do território. A quarta vítima foi uma tia de Justino. Ela já estava doente, mas ele não sabe precisar se o vírus foi a causa da morte ou se ele agravou sua comorbidade.

Com menos de 740 habitantes, os siekopai foram o primeiro povo indígena amazônico a relatar casos positivos de Covid. Era a segunda semana de abril de 2020.

No início da pandemia, os siekopai decidiram mandar um grupo de famílias a um lugar sagrado na Amazônia, chamado Lagartococha ou Pëkëiya, em uma viagem de canoa pelo rio Aguarico. 


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“Isolamos essas famílias porque, se algo acontecesse conosco, a semente deveria permanecer. Deixamos cinco famílias lá”, conta Justino Piaguage.


O povo Siekopai, localizado na bacia do rio Aguarico, foi a primeira nacionalidade amazónica onde o coronavírus chegou ao Equador. Foto: Manuel Pallares/Fundación Raíz

Quando surgiram os primeiros casos da nova doença, a comunidade adotou suas próprias medidas de segurança. “Nos isolamos e começamos a estudar o vírus com a sabedoria dos anciãos. Tomei a iniciativa de recorrer a eles, que conhecem as plantas”, lembra Justino. “Aos poucos chegamos a uma fórmula com três plantas. Depois fomos acrescentando outras. Algumas são conhecidas, como o gengibre, o alho, que em nosso idioma é o umucó, el nuní, o amupajuró”.

Esse extrato de plantas foi a proteção que encontraram contra o coronavírus em meio a um cenário desolador no Equador, quando as pessoas começaram a morrer nas ruas diante do colapso do sistema de saúde. Abandonados pelo Estado, os siekopai recorreram a seus conhecimentos sobre folhas e raízes.

O início da pandemia foi marcado por medo e incerteza. “Quando se confirmava um caso na comunidade, essa pessoa ficava isolada em casa. Mas era complicado, porque ela iria acabar morrendo de tristeza. Quando chegamos à criação do nosso próprio remédio, foi ele que passamos a tomar”, conta Justino. Ele afirma ter sido um dos primeiros infectados pelo novo coronavírus na comunidade de San Pablo de Katëtsiaya, uma das seis que compõem a nacionalidade siekopai em território equatoriano.


A pintura de Wilfrido Lusitande Piaguaje de como eles lidaram com a pandemia detalha com precisão os usos das plantas e a relação com a floresta do povo Siekopai.

Certa vez, alguém sonhou que um incêndio atingia a comunidade. Mas uma camada de proteção cobria o território, “e as chamas já não consumiam nossa comunidade”, lembra Justino. Para ele, o significado do sonho era “primeiro, virá o sofrimento, depois a proteção”. A comunidade recorreu a sete plantas tradicionais como escudo de proteção. Também usaram um pó de ervas trituradas que era aplicado no nariz das pessoas.

A vastidão de plantas e o papel dos sábios siekopais ficaram registrados na pintura que o artista Wilfrido Lusitande Piaguaje criou para esta série de reportagens “Visões do coronavírus”. O pintor tem 36 anos e mora na comunidade de San Pablo de Katëtsiaya, às margens do rio Aguarico, com a esposa Johana e duas filhas. OjoPúblico entrevistou o artista em sua comunidade, e acompanhou os primeiros esboços da obra que ilustra essa reportagem.

A máscara da selva

No ano 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou um concurso de pinturas para selecionar uma que refletisse o planeta na virada do milênio. O siekopai Ramón Piaguaje ficou com o primeiro lugar, entre 22 mil participantes de 51 países, com a obra “Amazônia Eterna”. Desde então, o artista autodidata, dominador das grandes formas e de visão hiperrealista virou uma celebridade. A nacionalidade siekopai tem três pintores dessa escola, cuja referência é o trabalho pioneiro de Ramón. Todos são parentes dele.

Wilfrido Lusitande Piaguaje desenha desde pequeno. “Quando eu ia tomar banho no rio, desenhava um tucano na margem. Um dia fizeram um curso para os moradores daqui, em uma maloca (casa). Os mais velhos também participaram, inclusive meu pai desenhava um boneco, era o espírito de Yoko, um cipó do qual se faz uma bebida tomada nas madrugadas. Eu frequentava a escola e nessa época acompanhava a obra de Ramón Piaguaje, que ganhou um prêmio mundial. Eu queria ter um quadro igualzinho. Daí vem minha ideia de como pintar”, conta. A pintura é um reflexo da visão de mundo dos siekopais.

O artista encontrou seu próprio estilo de pintura de maneira autodidata. E diz que a fonte de inspiração traz um segredo. “Quando estou pintando, sinto como se estivesse na floresta, dentro das árvores. Estou concentrado, pensando no que eu vejo, de onde a planta nasce, como ela cresce, cria galhos, folhas. Tudo isso me vem à mente. Os sons, os grilos, os passarinhos, e então surge a ideia de pintar o que eu escuto, canta um pássaro por ali, e ele entra no quadro”.


O artista Wilfrido Lusitande desenha e pinta a relação do seu povo com as florestas. Ele diz que as plantas são como uma máscara protectora e natural.

O novo coronavírus e seus efeitos quebraram a tranquilidade das comunidades amazônicas. Para esse projeto artístico, Wilfrido compartilhou sua própria visão das plantas, que ele diz serem como uma máscara natural de proteção. Na imagem, o sábio curandeiro veste um traje típico do povo multicolorido (como se autodenominam os siekopai). Na cabeça usa uma coroa decorada com desenhos concebidos sob efeito do yagé (ayahuasca), além de acessórios como presas de onça e colares de sementes. No centro, um extrato de plantas é preparado em uma panela. E em frente uma pessoa sentada sobre a grama assiste em silêncio ao que parece ser uma cerimônia religiosa.

“É o efeito da medicina das plantas e o ritual espiritual”, explica o biólogo Manuel Pallares, membro da Fundação Raíz-Caemba, que estuda e trabalha com essa comunidade há mais de 20 anos. Para o especialista, a pintura de Wilfrido Lusitande Piaguaje reforça a confiança na medicina tradicional. “Quando o vírus chegou aos territórios indígenas, não estávamos preparados. Confiávamos que era algo distante, de outro país, outra cidade, e não nos preparamos para enfrentar esse inimigo invisível”, conta Wilfrido.

Separados pela guerra, unidos na lagoa sagrada

O povo siekopai pertence ao grupo dos tucanos ocidentais. Quando os missionários jesuítas chegaram à Amazônia, chamaram-nos “Los encabellados” (“Os cabeludos”), pelo cuidado que davam à sua vasta cabeleira, explica Manuel Pallare.

Eles viviam entre os rios Napo e Putumayo, na fronteira com Peru e Colômbia. No período colonial, a população chegava a 16 mil pessoas. Mas as novas doenças trazidas pelos europeus durante a conquista foram dizimadoras. As famílias se reuniam em diferentes clãs, que ganharam os nomes de Piaguaje, Piaguage, Payaguaje, entre outros. Os grupos que restaram confluíram para as margens do rio limítrofe Siekopae, e daí veio o nome: “povo multicolorido”.


O povo Siekopai habitou os rios Napo e Putumayo na fronteira com o Peru e a Colômbia, mas durante a conquista, a sua população foi dizimada por novas doenças. Foto: Manuel Pallares/Fundación Raíz.

No começo do século 20, eles foram escravizados por colonos e imigrantes. A história daquela época conta que Alejandro Payaguaje teve um desentendimento com seu patrão, e que então quatro famílias fugiram com temor de represálias. “Elas atravessaram (o pântano de) Lagartococha (no limite entre Equador e Peru), encontraram uma embarcação abandonada e a utilizaram para cruzar o (rio) Cuyabeno, onde se encontraram com as famílias Sionas, com as quais dividem o mesmo idioma”, conta o biólogo Manuel Pallares.

Esse grupo, do qual Wilfrido Lusitande Piaguaje descende, transitava entre os três países amazônicos e se estabeleceu no Equador alguns meses antes da guerra peruana-equatoriana de 1941. Depois disso, só podiam cruzar a fronteira escondidos. Pallare explica que apenas depois do acordo de paz de 1998 entre Equador e Peru foi possível organizar o primeiro reencontro entre as famílias indígenas que tinham sido separadas pela guerra.

Profundo conhecedor da história dos siekopai, o pesquisador conta que, entre 1941 e 1999, houve encontros esporádicos entre pessoas que contornavam os destacamentos militares para que se pudessem ver. “Quando organizamos o primeiro encontro siekopai Equador-Peru, conhecemos um senhor e uma senhora que tinham sido apaixonados quando jovens, eles ainda estavam vivos, se reencontraram com mais de 70 anos e ficaram juntos”, conta.


Wilfrido Lusitande Piaguaje, como todos os outros siekopai, procura respostas no seu ambiente e nas plantas. A pintura desta série jornalística retrata as buscas que se realizam, a fim de enfrentar a nova doença.

Os siekopai foram os primeiros indígenas do Equador a relatarem infecções pelo coronavírus. Um grupo de turistas chegou ao rio Cuyabeno, e um passageiro holandês estava com a nova doença. Foi um dos primeiros casos positivos de Covid divulgados no Equador. Diante do descaso do Estado, das centenas de vítimas nos hospitais e dos corpos nas ruas, a comunidade de Wilfrido Lusitande Piaguaje, assim como todos os sekoyas (como também se conhecem os siekopai), se refugiaram nas plantas.

O atual presidente da nacionalidade siekopai, Elias Piyahuaje, encaminhou uma carta em 20 de março a um dos candidatos que passou ao segundo turno nas eleições presidenciais no Equador. Nela, Elias denuncia o estado de pobreza extrema de seu povo e reclama o reconhecimento do direito ancestral aos territórios de Lagartococha. Durante a guerra com o Peru eles foram tirados dessas terras sagradas, consideradas por eles o lugar de origem de seu povo, berço dos bebedores de yagé e lugar de conexão com os espíritos da água.

Com sua arte, Wilfrido Lusitande Piaguaje expressa a esperança e a sabedoria das plantas durante a pandemia que até julho de 2021 encerrou ao menos 30.770 vidas no Equador, segundo os números oficiais.

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