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Reportagem Publication logo Fevereiro 4, 2022

Raimundão, aos 76 Anos, Luta pela Floresta em Xapuri

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Autor(a):
Image by Alberto Cesar.
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Em 2018 e 2019, mais de 30 jovens indígenas participaram das oficinas da agência Amazônia Real, em...

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O seringueiro e extrativista Raimundo Mendes de Barros. Image by Katie Maehler/Mídia NINJA for Amazônia Real. Brazil.

A história socioambiental da Amazônia teve a participação de vários personagens que vivem até hoje a resistência das suas lutas. Entre eles, o extrativista e seringueiro Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, nascido no ano de 1945 no Seringal Santa Fé, no município de Xapuri, Estado do Acre.

Sou filha de Raimundo Barros e estar fazendo parte desta luta é algo de extrema importância para mim, pois eu estou dando continuidade por aquilo que ele tanto lutou no passado.

Aos 76 anos de idade, Raimundão conta que os ensinamentos que ele tem hoje é espelho do pai Francisco Deodato pois, durante a infância, seu pai sempre dizia que nunca devia destruir as florestas e fazia os roçados de acordo com as necessidades que tinha de plantar, sendo eles: o arroz, o feijão, a mandioca, a banana e o jerimum. “Então, desde menino eu já tomei consciência de que a floresta era para ser mantida em pé.”

Sensibilizado com o que vinha acontecendo nas décadas de 1960 e 1970, Raimundo de Barros, junto com Chico Mendes, Wilson Pinheiro, Ivair Higino e tantos outros companheiros de luta, se uniram com um só intuito: a não devastação das florestas. Isso porque o Acre e a Amazônia estavam sendo ocupados por pessoas vindas do Sul do país, que tinham como objetivo a criação de gado. 

Tudo isso graças ao governador Francisco Wanderley Dantas, que saiu do Acre indo até o Sul com uma propaganda enganosa dizendo que o Estado precisava se desenvolver, pois havia muita terra sem ninguém. Mas, como de praxe, ignoraram a existência dos trabalhadores, pois as florestas estavam cheias de seringueiros que, inclusive, estavam vivendo uma situação bastante delicada devido à falência dos seringalistas — os patrões — que não souberam administrar o que ganharam ao longo dos anos, com o produto que os seringueiros produziam, que era a borracha.


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Raimundão and Raiara Barros. Image by Amazônia Real.

Então, as pessoas da região Sul começaram a chegar no Estado do Acre e encontraram uma realidade bem diferente daquela que o governador havia propagado, pois as terras não estavam vazias, mas sim repletas de seringueiros. A partir daí, começou uma situação chocante e constrangedora, pois as florestas estavam sendo destruídas e os homens e as mulheres que tinham nascido e se criado no Acre e também outros que tinham migrado de vários estados do Nordeste para a região, começaram a ser expulsos à força bruta. E outros foram assassinados, como o Raimundo Calado, no Seringal Riozinho.

“Com isso, eu tomei uma decisão de largar um emprego que eu tinha naquela época, fazendo um serviço de combate a malária como operador de inseticida na antiga Sucam (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) e fui me juntar aos companheiros dos sindicatos da liderança de Chico Mendes e Wilson Pinheiro. Fiz isso com o objetivo de garantir a continuidade dos seringueiros nas florestas porque sempre foram eles os maiores preservadores daquela época. Até aí eu não tinha noção de que ao defender os povos trabalhadores e defender a floresta estava fazendo também um trabalho ambiental, estava contribuindo para uma não alteração climática,”  disse Raimundo de Barros.

“Estou muito convicto de que todo o trabalho que nós fizemos foi útil para esta questão, e eu não posso deixar de mencionar que o capital é o maior devastador e o maior poluidor, não só no Brasil, mas no mundo. O ser humano não mede distância e nem esforço para continuar com a sua saga de ganância pelo capital e, para adquiri-lo, ele não quer saber de questão ambiental, ele vai apenas dizimando tudo,” afirmou Raimundão.

Diante a estes assuntos, nós temos uma necessidade muito grande de somar forças com outras populações, seja da cidade, seja da floresta, para que a gente não permita que a devastação continue, pois já foi vivido um momento de muita euforia, no tocante a paralisação dos desmatamentos com a morte de Chico e com a morte de tantos outros companheiros. Temos a infelicidade de ter na direção do nosso país um representante do capital, um representante da direita mais atrasada que pode se conhecer, que está incentivando a continuação da destruição das nossas florestas, isto é público e notório, o mundo é conhecedor disso.

“Estou na idade que estou, mas ainda sou um lutador, um esperançoso de que a gente consiga que as novas gerações tomem conhecimento e lutem pelo bem maior: a preservação da floresta Amazônica e as questões climáticas,” pontuou Raimundão.